Amanda Zecchin
Corredor de um data center em luz amena
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A infraestrutura invisível da inteligência artificial

Quem paga a conta dos data centers?

Ensaio/9 min de leitura

A nuvem não é invisível

A inteligência artificial costuma ser apresentada como algo imaterial. Fala-se em nuvem, algoritmos, automação, produtividade e futuro. Mas a IA não vive apenas no código. Ela ocupa espaço físico, consome energia, utiliza água, exige redes elétricas, terrenos, sistemas de resfriamento, geradores, cabos, servidores e infraestrutura pesada.

Por trás da promessa de eficiência digital, existe uma estrutura industrial silenciosa: os data centers. Eles são o coração físico da inteligência artificial — e também o ponto em que a revolução tecnológica começa a revelar seus custos ambientais, sociais e políticos.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda global de eletricidade por data centers deve mais que dobrar até 2030, alcançando cerca de 945 TWh, volume superior ao consumo atual de países inteiros como o Japão. Esse dado revela uma contradição essencial: a tecnologia vendida como solução para o futuro pode aprofundar disputas muito antigas — por energia, água, território e poder decisório.

A IA não vive apenas no código.

A guerra silenciosa pela água

O problema não é apenas o quanto a IA consome. É onde ela consome, quem autoriza esse consumo, quem lucra com ele e quem suporta seus impactos.

Um dos pontos mais sensíveis é a água. Grandes data centers podem consumir até 5 milhões de galões de água por dia para resfriar servidores e processadores. Em alguns casos, esse volume equivale ao uso diário de uma cidade pequena. A tensão se agrava porque boa parte dos sistemas de resfriamento depende da evaporação: a água é retirada de uma bacia hidrográfica local e não retorna integralmente aos rios, córregos ou sistemas de tratamento.

Essa lógica transforma uma infraestrutura digital global em um problema local. Um usuário em qualquer parte do mundo faz uma solicitação a um sistema de IA, mas a água que permite aquele processamento pode estar sendo retirada de uma comunidade específica, muitas vezes já afetada por seca, estresse hídrico ou infraestrutura pública insuficiente.

O conflito deixa de ser técnico e passa a ser ético: uma empresa privada pode consumir volumes massivos de água para sustentar modelos comerciais de inteligência artificial enquanto comunidades próximas enfrentam restrições, aumento de custos ou insegurança hídrica?

Além da água usada diretamente no resfriamento, existe uma pegada hídrica indireta. A fabricação de microchips exige água ultrapura em grande escala. A energia que abastece muitos data centers, quando proveniente de usinas termelétricas, também consome água para geração de vapor e resfriamento. Ou seja: a IA consome água antes, durante e depois de operar.

O custo energético da IA

A energia é outro ponto crítico. Um complexo hyperscale pode consumir eletricidade em escala comparável à de milhares de residências. Para sustentar essa demanda, são necessárias novas subestações, linhas de transmissão, redes de distribuição e estruturas de backup. O custo dessa expansão nem sempre fica com as empresas. Muitas vezes, ele é distribuído indiretamente aos consumidores por meio do aumento nas tarifas de energia.

Assim, a conta da inovação pode chegar à casa de pessoas que sequer se beneficiam diretamente dela.

A tecnologia pode parecer invisível na tela. Mas seus impactos são profundamente físicos.

Quem suporta os impactos?

Há ainda a poluição invisível. Para evitar falhas de operação, data centers utilizam geradores a diesel ou gás como sistemas de emergência. Esses equipamentos podem emitir poluentes como óxidos de nitrogênio e material particulado fino, associados ao agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares. A promessa de uma tecnologia limpa, nesse ponto, encontra a realidade de motores, combustíveis fósseis e emissões locais.

O impacto territorial também é expressivo. Data centers ocupam grandes áreas, impermeabilizam o solo, pressionam o planejamento urbano e podem substituir terras agrícolas, áreas de conservação ou zonas residenciais por complexos industriais de concreto, aço e vigilância. A instalação de um data center nunca é neutra: ela reorganiza o território ao seu redor.

E, como ocorre em muitos conflitos socioambientais, os impactos não são distribuídos de forma igual. Comunidades de baixa renda, populações racializadas e territórios com menor poder político tendem a suportar de forma desproporcional os efeitos negativos: ruído constante, piora da qualidade do ar, pressão sobre recursos naturais, aumento de tarifas e pouca participação nos processos decisórios.

A ilusão da inovação limpa

A falta de transparência aprofunda o problema. Empresas de tecnologia frequentemente negociam com governos locais por meio de acordos sigilosos, incentivos fiscais e documentos protegidos por cláusulas de confidencialidade. A população, que será diretamente impactada, muitas vezes não sabe quanta água será consumida, quanta energia será exigida, quais emissões serão geradas ou quais benefícios concretos serão entregues em troca.

A promessa de empregos também merece análise crítica. Embora os data centers sejam apresentados como motores de desenvolvimento econômico, grande parte dos postos de trabalho é temporária e concentrada na fase de construção. Depois de operacionais, esses complexos altamente automatizados costumam empregar poucas pessoas de forma permanente. Em muitos casos, o território entrega água, energia, solo e incentivos fiscais — mas recebe pouco retorno social duradouro.

O problema da transparência

Isso não significa que a expansão da IA deva ser simplesmente demonizada. Existem soluções tecnológicas importantes: resfriamento por imersão, resfriamento líquido direto no chip, sistemas de circuito fechado, uso de águas residuais tratadas, free cooling em regiões frias, integração com energias renováveis e estratégias de consumo flexível.

A pesquisadora Ayşe Coskun propõe, por exemplo, que data centers possam atuar como “baterias virtuais”, ajustando suas cargas de trabalho conforme a disponibilidade de energia renovável. Em vez de apenas sobrecarregar a rede, eles poderiam operar de forma mais inteligente: processar mais quando houver energia limpa abundante e reduzir operações em horários de pico.

A ideia é promissora. Mas ela não substitui regulação, fiscalização e participação pública. Tecnologia eficiente não basta quando falta governança.

O futuro dos data centers

A expansão dos data centers exige uma nova agenda jurídica. O debate sobre inteligência artificial não pode ficar restrito à proteção de dados, vieses algorítmicos, direitos autorais e responsabilidade civil por decisões automatizadas. É preciso incluir a infraestrutura material da IA na discussão.

Isso envolve licenciamento ambiental, transparência sobre consumo hídrico e energético, avaliação de impacto socioambiental, participação comunitária, planejamento urbano, matriz energética, tributação, fiscalização e responsabilidade das empresas pelos custos que impõem ao território.

A pergunta não é apenas o que a IA consegue fazer. Mas quem paga a conta para que ela funcione.

A pergunta que realmente importa

A pergunta central não é apenas: “o que a inteligência artificial consegue fazer?”

A pergunta mais urgente é: quem paga a conta para que ela funcione?

Porque a IA pode até parecer invisível na tela. Mas seus impactos são concretos. Eles aparecem na água que falta, na energia que encarece, no território que muda, no ruído que permanece, no ar que se respira e nas comunidades que raramente são chamadas para decidir.

A história não contada dos data centers é esta: a inteligência artificial não é apenas uma revolução digital. É também uma disputa por recursos naturais, infraestrutura pública e justiça socioambiental.

Referências bibliográficas

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